| VI. A Boston Pops | |
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A 10 de Julho de 1979 a música, em particular a Norte
Americana, sofria uma grande perda. O já octogenário Arthur Fiedler, responsável
maior pela difusão da música clássica nos Estados Unidos, e
habitualmente confundido com o fundador da Boston Pops, após as cinquenta
épocas a dirigir a orquestra, falecia vitimado por um ataque cardíaco.
Um sucessor era necessário para a direcção da orquestra, alguém que
fosse capaz de ocupar o lugar deixado vago pelo desaparecimento de Fiedler,
mantendo a grande tradição criada em grande parte pelo famoso maestro.
Fiedler havia começado as transmissões radiofónicas e as gravações
com a orquestra. O primeiro álbum a vender um milhão de cópias foi uma
gravação de Fiedler e a Boston Pops, realizado nos anos 30. Nos anos 60
começou as gravações para a PBS "Evening at Pops", os
célebres concertos televisionados. Tudo isto, juntamente com salas cheias
no Symphony Hall, em Boston, tornou a figura de Fiedler mítica no seu
próprio tempo.
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A 10 de Janeiro de 1980 a direcção da Boston Symphony anunciou o nome do novo director da Boston Pops Orchestra: "O sucesso extraordinário desse filme [Star Wars] é uma das razões porque ninguém acreditava que ele estivesse interessado em tomar a posição deixada vaga pela morte de Arthur Fiedler. Como aconteceu, Williams estava em Londres a gravar a banda sonora para The Empire Strikes Back quando aceitou o trabalho de maestro da Pops em 1980."(1) O compositor preferido de Hollywood assumia assim uma posição ocupada por poucos dos seus colegas dos estúdios cinematográficos. Alfred Newman foi maestro, mas dentro do sistema dos estúdios, Bernard Herrmann nunca conseguiu concretizar a carreira de director de orquestra que ambicionara, André Previn teve de abandonar totalmente Hollywood para seguir uma carreira como maestro. Williams foi o primeiro compositor/maestro de Hollywood a viver verdadeiramente uma vida dupla. |
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O contracto que transformou Williams no 19º director
musical da Boston Pops Orchestra era por dois anos, eventualmente renovável,
e foi saudado com entusiasmo. Williams anunciou que "o legado de
Fiedler ia ser cuidadosamente tratado", mas indicou também que
seriam introduzidas várias novidades. "O nosso pais está a
explodir com jovens dotados. Nós devíamos tentar uma vez por
semana, ou uma vez por mês, introduzir uma nova peça e comtemporizar o repertório
o mais possível."(2)
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Esta mudança de Hollywood para Boston provocou um menor
número de composições para cinema, mas o compositor não ficou perturbado
por isso. "O minha única motivação é musical. Manter a continuidade
desta grande orquestra com esta tradição, e vitaliza-la tanto quanto puder,
eu francamente fazia-o de graça."(5)
"Para um músico, ser-lhe pedido para ficar à frente deles (músicos da
Boston Symphony), é a maior honra que se pode ter na profissão."(6)
Mas
se a sua actividade com a Boston Pops implicou menos tempo dedicado às produções
de Hollywood, também lhe deu um fórum de divulgação de sua música e dos
seus colegas no mínimo invulgar. A prova disso esta nas suas primeiras
gravações com a orquestra. A primeira "Pops in Space" (1980) incluía
excertos das suas partituras para Star Wars, Empire Strikes Back,
Superman e Close Encounters of the Third Kind, tendo atingido o
Top 20 de vendas; "We Wish You a Merry Christmas"(1980)
introduzia os cânticos de Natal de Alfred Burt, célebres em Los Angeles, e
"Pops on the March"(1981) apresentava várias marchas compostas para
cinema. No decorrer das suas gravações com a Boston Pops Orchestra, assim
como nos seus concertos, continuou a ser frequente incluir excertos dos
clássicos do cinema ao lado de clássicos da música. O facto de poder
apresentar música para cinema ao vivo terá sido um dos factores que mais
atraiu Williams para o posto, podendo assim legitimar o seu trabalho e o dos
seus colegas: "A Pops pode ser um forum maravilhoso para pegar e
re-examinar os melhores bocados (de música para cinema) que já foram
feitos."(7) Com a continuação das gravações, que atingiam posições nas tabelas de vendas que rivalizavam com os artistas Pop/Rock, e lotações esgotadas no Symphony Hall, foi anunciado com entusiasmo a 21 de Dezembro de 1982, que a Boston Symphony e John Williams tinham assinado um contracto válido por cinco anos e à partida renovável. Williams estava feliz por manter a sua posição, embora os seus préstimos continuassem a ser exigidos em Hollywood: "Eu acho que combinar a actividade de Hollywood com a Pops é confortável; uma parece ser uma fonte de refresco para outra."(8) Durante a época seguinte Williams continua o seu trabalho com a orquestra, realizando novas gravações para a Philips Classics ("Out of this World", uma colecção de música para cinema) e encomendando novas obras e arranjos exclusivamente para orquestra. Esse é de facto um dos principais trabalhos de Williams com a orquestra: gerar uma nova 'livraria' de música, por compositores contemporâneos. O próprio Williams contribuiu com algumas peças, mas encomendou várias: "A Promenade Overture" de John Corigliano, para a primeira época de Williams com a Pops, e em 1982 "Ragomania" de William Bolcom.
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Mas 1984 marca um ano turbulento na relação entre Williams
e a orquestra. As coisas atingem uma gravidade tal, que Williams apresenta a
sua demissão à direcção da Boston Symphony em 13 de Junho. "A minha
demissão é o resultado daquilo que eu sinto serem diferenças criativas e artísticas
entre mim e a orquestra"(9). Já desde o
tempo de Arthur Fidler havia problemas de moral (e indisciplina) dos músicos
em relação às actividades da orquestra durante a época da Boston Pops. Mas
a gota de água deu-se durante um ensaio de uma peça do compositor "America,
The Dream Goes On", durante a qual alguns músicos tiveram um
comportamento inapropriado. Williams, o calmo compositor e maestro abandonou o
palco enfurecido. Pasquale Cardillo, clarinetista da orquestra em 1984,
ofereceu a sua visão dos acontecimentos: "Ele nunca se zangou, ele nunca
disse uma palavra brusca no palco a ninguém. Próximo do intervalo ele parou a
orquestra porque havia conversa a decorrer. Havia falta de atenção. Era
suposto as pessoas estarem a tocar. Eu sei que era barulhento. Ele disse duas
coisas: Nós não tínhamos tocado bem a 'Raymonda Overture'. Ele estava
aborrecido com isso. E ele também estava aborrecido com 'Varsity Drag'.
Ele continuou e discutiu o seu papel como director de orquestra". Mas o
que levou a Williams abandonar o ensaio aconteceu após o intervalo, quando
alguns membros da orquestra perturbaram a interpretação da peça de sua
autoria: "Eu nunca ouvi, mas houve quem ouvisse." Cardillo disse
compreender a atitude de Williams: "Ele é um homem - e isto tem de ser
dito - extremamente sensível. Eu posso entender, mesmo que ele não tivesse
intenções de sair, que um homem tão sensível pudesse muito bem dizer 'Isto
é uma indignidade para mim, Adeus!'"(10) Williams manteve-se com a orquestra e reafirmou o seu compromisso em melhorar a sua qualidade. Dedicou o seu tempo para melhorar o moral entre os músicos, e em grande parte a sua tempestuosa atitude contribuiu para a solução de alguns destes problemas. Williams sintetizou parte dos problemas que surgiram, e que no fundo, estavam na base do descontentamento da orquestra a Yann Merluzeou em 1993:
Outro problema que surgiu durante os anos 80 foi a distinção entre a Boston
Pops Orchestra e a Boston Pops Esplanade Orchestra. Enquanto a primeira é constituída
pelos membros da Boston Symphony, a segunda é constituída principalmente por
músicos freelance que tocam em várias instituições e circunstâncias.
Alguns dos seus músicos principais vem da Boston Pops, mas para o colectivo da
orquestra a confusão entre as duas era preocupante. Os músicos sentiam que,
uma vez que a Esplanade Orchestra não era uma orquestra profissional, que
devia ser encarada de outra forma, muito embora as suas actividades
financiassem a Boston Symphony e o seu principal concerto do ano seja o
mediático e muito frequentado concerto de 4 de Julho.
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À parte das complicações internas, Williams levou a
orquestra para as comemorações de 1985 com a alegria e boa disposição característica
dos seus concertos. Para o concerto comemorativo, Williams encomendou várias
novas peças, incluindo "An Orkney Wedding, With Sunrise" de Sir
Peter Maxweel Davies, "Overture to a Pops Concert" de Henry Mancini e o Concerto para Tuba de
Williams, dedicado ao tubista da orquestra, Chester Schmitz. Adições ao repertório da orquestra para o centenário foi a recentemente
descoberta da Abertura 1712 de P. D. Q. Bach e medleys de canções de Judy
Garland, excertos do musical "Wonderful Town" de Leonard Bernstein,
um tríptico de David Rose e arranjos de várias canções de Jerome Kern (cujo
centenário era também celebrado em 1985). As composições de Williams foram sempre uma constante na
orquestra. Não só através da que compunha expressamente para orquestra, mas
também ao levar a orquestra para eventos musicais, como o centenário da
Estátua da Liberdade, em 1986, em que o compositor estreou a sua Liberty
Fanfare, a partir do navio S.S. France, ou "We're Lokin' Good!" para
as Olimpíadas Especias, em 1987. Uma das facetas mais visíveis para o público fora dos Estados Unidos do trabalho de Williams da Pops foram as gravações que realizou, primeiro para a Philips Classics, e a partir de 1989, com a Sony Classical. Alguns dos melhores álbuns incluem, para além dos já mencionados, "Pops Around The World: Digital Overtures" (1981), "Aisle Seat" (1982), "Out of this World" (1983), "Swing, swing, swing" (1984), "With a Song in My Heart" (1984, com Jessie Norman), "Pops in Love", "Peter and the Wolf" e "Bernstein By Boston" (todos de 1985), "By Request..." e "The Planets" (ambos de 1986), "Pops Britannia" (1988) e "Pops à la Russe" Em Dezembro de 1989, Williams assinou um novo contracto com a Sony Classical e dias depois gravou um novo álbum dedicado a sucessos da Broadway, intitulado "Music of the Night". Outras gravações incluíram "The Spielberg/Williams Collaboration" (1990), "The Green Album" (1992), "Joy to the World" (1992), Unfogettable (1993) e "Music for Stage and Screen" (1994). Williams também encontrou tempo na sua pesada agenda, dividida entre Hollywood e Boston, para percorrer o país com a orquestra em várias digressões em 1985, 1989 e 1992 e em três pelo Japão, em 1987, 1990 e 1993.
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No Natal de 1991, Williams anunciou a sua vontade de abandonar a direcção da orquestra no final do seu contracto, em Dezembro de 1993. Na mesma altura em que o compositor desceu do pódio da orquestra, foi nomeado maestro laureado da orquestra e assumiu o cargo de conselheiro artístico da Boston Symphony para auxiliar na procura de um novo director musical.Williams comentou, ao abandonar o seu cargo de director musical da Boston Pops:
Durante o ano de 1994, Williams continuou a dirigir a orquestra consistentemente, até que em 1995 passou definitivamente o testemunho ao jovem maestro e pianista Keith Lockhart. Assim, como maestro
laureado da orquestra, Williams continuou a participar activamente nas
diversas actividades da Boston Pops, dirigindo vários concertos todos os anos,
no Symphony Hall e em Tanglewood.
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Dos 15 anos que esteve à frente da orquestra ficaram mais de 600 concertos e
cerca de 50 programas televisivos, além das já mencionadas gravações (cerca
de 30 álbuns originais, que já geraram dezenas de compilações.) Também foi
responsável por 24 encomendas e estreias mundiais: Williams trouxe para o
repertório da orquestra obras de John Corigliano (Promenade Overture), Sir
Peter Maxwell Davies (An Orkney Wedding, with Sunrise), William Bolcom (Ragomania),
John Adams, Oliver Knussen, William Kraft, Joseph Schwanter, William Thomas
McKinley (Boston Overture) e Henry Mancini (Overture for a Pops Concert), entre
outros. Outra das fortes características de Williams foi trazer para a ribalta
os seus músicos. Tim Morrison tem hoje uma carreira como trompetista em
Hollywood; Emanuel Borok, violinista principal da Pops nos primeiros anos,
tocou música de câmara com Williams e foi solista em muitos concertos, depois
de deixar a orquestra, Tamara Smirnova, continuou a ser solista com a
orquestra; Martha Babcock, violoncelo, Leone Buyse, flauta e Gus Serbring,
trompa, também apareceram frequente e consistentemente como solistas. Williams
também reconheceu o valor da então jovem prodígio Sarah Chang, na altura com
apenas 12 anos. Williams convidou também para aparecerem como solistas outros
jovens músicos da área de Boston, proporcionando a muitos as suas primeiras
aparições com uma orquestra profissional. Durante os seus anos convidou vários maestros para dirigir a orquestra, como André Previn, John Mauceri, Carl St. Clair, Michael Kamen e Bill Conti, mas foi com ele que a orquestra foi dirigida pela primeira vez por uma mulher (Marin Alsop) e por um afro-americano (Isaha Jackson). Também trouxe consigo muitos músicos do mundo da música clássica (Isaac Stern, Itzhak Perlman, Jessye Norman, Yo-Yo Ma, James Galway, Leontine Price, Marilyn Horne e Kiri Te Kanawa) e do Jazz (Winton Marsalis, Ella Fitgerald, Arturo Sandoval, Tony Bennett e Vic Damone), e ajudou a propulsionar a carreira do seu assistente, Ronald Feldman. Williams continua a cumprir as suas funções de Maestro Laureado da Pops e
Artista em Residência em Tanglewood, dirigindo a orquestra e gravando alguns
programas "Evening at Pops", e mantendo um papel cada vez mais activo
no Tanglewood Music Center, ajudando a formar novos músicos, realizando
vários seminários de composição.
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(1) Richard Dyer in "Interview with John
Williams", por Richard Dyer, The Boston Globe, 6 de Junho de 1997; |