| III. Os anos 70: Hitchcock, Altman, os filmes catástrofe e... | |
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Spielberg! Com a chegada do sucesso crítico nos finais dos anos 60, Williams começa a ser contratado para produções cada vez mais importantes. Grande parte de 1970 é passada em Inglaterra, onde orquestra e dirige a música de Jerry Bock para o celebre musical Fiddler on the Roof (1971), com a participação do violinista Isaac Stern, e compõem uma das suas melhores (e também preferida) partituras para o telefilme Jane Eyre (1970), através da qual deixa transparecer a sua paixão pela música britânica, ao compor peças no idioma pastoral inglês: "Eu penso que Jane Eyre está muito próxima do meu coração musical. Vem de Yorkshire. Tu conheces o livro de Brontë. E é criado com música folclórica, se assim quiseres, e eu gosto de a tocar porque é gratificante para a orquestra e melódica de uma forma muito colorida e atmosférica"(1). Fiddler dá a Williams o seu primeiro Oscar (partilhado com o compositor Jerry Bock, em Abril de 1972), enquanto que Jane Eyre traz-lhe o seu segundo Emmy. Neste ano a sua Sinfonia recebe a estreia Europeia, interpretada pela London Symphony Orchestra sob a direcção de André Previn (após esta interpretação Williams retirou-a do seu catálogo de composições, como já foi dito antes).
O reconhecimento pela Academia de Hollywood tornou
Williams ainda mais visível e desejado aos olhos de
produtores e realizadores, tendo nesta altura trabalhado
para Robert Altman, Martin Ritt, Mark Rydell (realizador de The Reivers) e com o mestre Alfred Hitchcok, no seu último
filme The Family Plot (1976). Estes filmes deram
a Williams a inspiração para algum do seu melhor e mais original trabalho. Embora altamente divergentes em estilo
e género, permitiram ao compositor apurar o seu som.
Com o realizador, Williams trabalhou em Images e The Long Goodbye. Em Images(1972), um filme sobre uma mulher com perturbações mentais, toda a partitura, cheia de 'efeitos especiais' musicais experimentais, é interpretada por músicos, sem recurso a sintetizadores. A partitura é dividida em duas partes, uma com recurso a uma orquestra convencional, e outra alimentada pela primeira mas cheia de sons bizarros, para delinear a doença da protagonista. Williams teve o auxilio do percussionista Stomu Yamashta, que com o compositor 'improvisou' a música. Grande parte dos sons foram criados por Yamashta ao bater em esculturas Baschet; outros são sons vocais, recorrendo mesmo ao idioma nativo do percussionista. Williams, que na gravação dirigiu a orquestra do piano, falou anos mais tarde desta partitura com Irwin Bazelon:
Se por um lado Images é um dos trabalhos mais inovadores e arrojados de Williams, por outro The Long Goodbye(1973) é monotemático, mas não menos variado: o tema é ouvido nos mais diversos arranjos, desde interpretado por uma banda durante um enterro, até a um arranjo pop no rádio de um carro. Em The Cowboys(1972, de Mark Rydell)e The Missouri Breaks(1976,
de Arthur Penn), Williams retracta novamente a
paisagem americana do século passado de formas diversas.
No primeiro com harmónica e uma grande orquestra, que
revela por vezes a influência da música de Aaron Copland;
na segunda cria música mais fresca e acessível, deixando
permear o seu já inconfundível estilo sonoro, pelas
sonoridades do folclore americano e das canções de
Stephen Foster. Em 1973 trabalhou com o cantor e poeta Paul Williams (sem relação
de parentesco) em dois filmes: Cinderella Liberty(a sua
terceira colaboração com Mark Rydell) e The Man
Who Loved Cat Dancing. O primeiro conta a história de um romance
entre um marinheiro em licença em Nova York e uma mulher que conhece
na cidade, e está recheada do som característico da época, com duas
canções de Paul Williams, e a harmónica de Toots Thielemanns. O
segundo é um Western, cujo tema é baseado na canção "Dream
Away", com letras de Paul Williams. A canção não
foi usada no filme, nem nunca foi lançada nenhuma banda sonora do
filme. A canção foi, no entanto, apresentada no álbum "Here
Comes Inspiration" de Paul Williams, dirigida pelo compositor. No
mesmo ano, Frank Sinatra, que tinha um papel no filme, gravou a
canção no seu álbum "Ol'Blue Eyes Is Back". Os anos setenta viram a moda dos filmes catástrofe e Williams foi
um dos compositores mais fortemente associados ao género. Com o produtor Irwin Allen, para quem já havia composto
música para várias séries televisivas nos anos 60 (Lost
in Space e Land of the Giants), trabalhou em dois filmes: The Poseidon Adventure
(1972) e The Towering Inferno
(1974). Em 1974 compôs também a música para Earthquake.
Todas estas partituras tem a particularidade de usar a orquestra para
descrever o desastre iminente, bem como a tragédia das personagens e
o seu sofrimento, enquanto que a vida quotidiana das personagens e as
suas relações pessoais são descritas por música típica da época.
Será interessante notar que as duas obras de 1974 parecem ser só um
esforço musical, como se fizessem parte de um todo. Ainda assim a sua
partitura para Towering Inferno permanece, ainda hoje, como mais
um marco na sua carreira, muito em particular o enobrecedor tema de
abertura. Um dos reconhecimentos mais importantes do seu trabalho durante
este período veio do mestre do supense Alfred Hitchcock. O realizador
britânico requisitou as capacidades e qualidades de Williams para Family
Plot(1976), que se revelaria o seu trabalho final. Longe da
excelência cinematográfica de tempos passados, Hitchcock filma uma
comédia negra sobre uma médium, cujos poderes são falsos, e um
casal de negociantes de pedras preciosas, cujos métodos menos legais
são acidentalmente descobertos pela médium e pelo seu namorado, um
incompetente taxista. Williams cria uma partitura que revela o lado
cómico da história, dando ao mesmo tempo uma aura de misticismo
através do uso de coro feminino e cravo. O mesmo tema serve para descrever o
casal de joalheiros, nas suas tentativas de ilegalmente obter novas
pedras preciosas, mas nestas altura o compositor transforma-o,
tornando-o mais soturno. Williams reveste a música com um tom ligeiro, mais
ao gosto do Hitchcock pós-Herrmann, mas não menos trabalhada. Sobre
o seu trabalho com Hitchcock, Williams disse que "Eu não estava
excitado com o filme em particular, mas eu queria trabalhar com
Hitchcock, e acabou por ser o seu último filme. Ele não queria nada
de espesso, pesado. 'Lembra-te', ele disse-me, 'o homicídio pode ter
piada.'"(5) E muito embora
Williams deseja-se trabalhar com o realizador , não o fez sem
consultar antes o seu mentor e amigo Bernard
Herrmann, quando lhe foi oferecido o trabalho. Segundo consta,
Herrmann terá respondido, na sua habitual e efusiva forma, que o
jovem Williams não devia de forma nenhuma perder a oportunidade de
trabalhar com tão bom realizador. Mas foi logo no início da década que Williams conheceu o realizador com quem mantêm a sua mais longa colaboração. Williams contou a Richard Dyer como conheceu o então jovem realizador Steven Spielberg:
Spielberg acrescentou a Dyer:
Williams concordou em ver o filme e em compor a música, e muito embora acha-se que "era muito bom, especialmente a segunda parte"(9), disse recentemente que "talvez eu tenha algumas dúvidas sobre o primeiro filme que fizemos juntos, Sugarland Express em 1973-74. É um filme muito bom, mas não me foi dada a oportunidade para desenvolver a minha música tanto como eu queria"(10). De facto só é possivel encontrar a música para The Sugarland Express num CD pirata, ou então em duas re-gravações do tema principal (uma das quais com Williams a dirigir a Boston Pops Orchestra, com Toots Thielmanns como solista). A partitura é bastante discreta, quando comparada com o pesado estilo sinfónico com que os filmes de Williams e Spielberg são associados. Esta é escrita para harmónica e orquestra, complementado perfeitamente o ambiente do filme. O seu tema principal estabelece logo uma ligação à localização geográfica em que decorre a acção, e as passagens mais rápidas descrevem capazmente a fuga dos protagonistas às autoridades. Além de optimizar o filme através da sua música, Williams ainda compôs uma porção considerável de source music no estilo pop dos anos 70, para o filme, algo pouco vulgar de acontecer em Hollywood, onde a prática comum é usar canções que estão na moda, de forma a serem incluídas em álbuns da banda sonora para aumentar as suas vendas. A colaboração em The Sugarland Express (1973) foi tão positiva, que os dois artista voltaram a encontrar-se em Jaws (1975). De certa forma incluído na moda do filme catástrofe, o trabalho valeu a Williams o seu primeiro Oscar para uma partitura original. A música é hoje famosa pelo seu tema principal, assente sobre um firme batimento, com a violência quasi tribal e pagã do bailado de Igor Stravinsky "Le Sacré du Printemps", serve como uma espécie de farol para o perigo que existe na água. As duas notas do tema principal que nos é dado a conhecer nos créditos de abertura, são suficientes para sabermos que a tragédia é eminente. Este tema foi descrito como "uma sinfonia marítima com um motivo Melvilliano"(11). O inteligente uso da música no filme valeu a Williams ser (justamente) incluído no grupo dos grandes mestres da música para cinema, sendo o seu trabalho em Jaws frequentemente posto lado a lado com a música de não outro senão o lendário Bernard Herrmann. No entanto, o compositor encontra espaço no filme para mais do que a violência e ferocidade dos ataques do tubarão. Existe música de suspense, associada a histórias trágicas passadas no mar, contadas por um caçador de tubarões aos seus companheiros, assim como música mais ligeira para os despreocupados veraneantes (o memorável "Promenade (Tourists on the Menu) ou para os caçadores de tubarões que partem para o mar ("Out to Sea"). Esta peças mais ligeiras, para além de criar uma atmosfera (ainda que temporariamente) mais agradável, são compostas num estilo neo-clássico, algo típico de Williams nesta época, com um frequente recurso ao cravo, em forte contraste com a violência orquestral das cenas que envolvem o tubarão e a sua caça. Os anos 70 viram também um trabalho diferente (e até agora único) sair do génio de Williams. O compositor compôs em 1975 o musical Thomas and the King, que foi estreado em Londres sem obter grande sucesso. Baseado na vida de Thomas Becket e na sua relação com o Rei Henrique II, o tema simplesmente parece não ter sido o suficientemente apelativo para os espectadores. A música reflecte a influência de modelos famosos, particularmente de Camelot de Lerner & Loewe, mas reflecte também um Williams confiante e experiente na composição de canções e no uso dos solistas e coro de forma eficiente. A história foi da autoria de Edward Anhalt e as letras de James Harbert. Apesar do seu pequeno sucesso o musical foi gravado em 1981, com grande parte dos membros do elenco original. Paul Roland escreveu sobre este trabalho:
Os anos setenta não foram generosos no que se refere a peças para salas de concerto, tendo o compositor apenas composto duas obras. Em 1971 Williams recebeu uma nova encomenda de Donald Hunsberger e o Eastman Wind Ensemble, que resultou numa peça de doze minutos intitulada "A Nostalgic Jazz Odyssey". Esta peça foi estreada no mesmo ano; no entanto só recentemente foi interpretada novamente, tendo recebido a sua estreia japonesa já nos anos noventa. Esta mesma época viu nascer um dos mais eloquentes esforços de Williams para as salas de concerto. O Concerto para Violino e Orquestra, mantém-se ainda hoje um dos marcos na sua carreira. Iniciado em 1974, o compositor deu as orquestrações como concluídas a 19 de Outubro de 1976. A peça havia sido sugerida pela actriz e cantora Barbara Ruick, esposa de Williams durante dezoito anos. Quando em 1974, Ruick faleceu subitamente, vitima de um derrame cerebral, o compositor iniciou o trabalho no concerto, dedicando-o à sua memória. O tom da obra é elegíaco, introvertido e introspectivo (tal como o seu compositor) reflectindo a dor da perda, e inclui um pequeno tema no final do último movimento em que o violino "chora" uma melodia extraordinariamente lírica e bela. A obra exige também uma elevada técnica por parte do solista, e aproveita todas as cores da paleta orquestral. André Previn referiu-se ao concerto com "absolutamente maravilhoso."(13) O concerto foi apenas estreado em 1981, com o violinista russo Mark Peskanov, acompanhado pela Saint Louis Symphony Orchestra sob a direcção de Leonard Slatkin. Para uma interpretação em Los Angeles em 1983, o compositor descreveu o concerto:
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(1) "Interview with John Williams", por Tony
Thomas, Cue Sheet, Maio
de 1991; |